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Penélope

Tiago Vieira

(um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra)

 

Projecto baseado num processo de pesquisa iniciada em Bruxelas:
a primeira parte um solo de um para um, com a duração de 12 horas - Manifest (amar até às últimas consequências sempre submissão nunca: gritou Penélope);
a segunda Trummer (a reinvenção do amor numa paisagem catastrófica) a 18 e 19 de junho 2019 no KVS Theater em Bruxelas.
A última fase será o espetáculo final em Portugal: Landschaft (a tua lança comprida que rasgará o lírio da minha carne).

 

 

Direcção, cenografia, coreografia, texto, dramaturgia, figurinos e interprete: Tiago Vieira Intérpretes: Nuno Pinheiro, Sofia Dinger, Ana Libório, Vânia Rodrigues, David Marques, Miguel Nunes, Paulo Quedas e Tiago Vieira.
Apoio: Self-Mistake (ORG.I.A./CML e Produções Independentes)
Produções Independentes é financiada pela República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes


Perante as ruínas da História, surge a morte ou a ressurreição do mito: Penélope.  Tendo como ponto de partida esta figura mitológica pretendo estabelecer uma relação com a memória da Segunda Guerra Mundial com foco nas suas consequências filosóficas, artísticas, políticas, sociais e humanas, de uma forma não exclusivamente documental. Pretende-se a criação de um universo performativo que se inspire no mito e num acontecimento histórico, mas que origine uma nova possibilidade de visão, isto é, interessa-me mais os conceitos associados às temáticas escolhidas e a partir daí criar um discurso de características apocalípticas que estabeleça uma relação com o tempo presente, uma espécie de estado de alerta. PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra) é um estudo performático sobre a violência do amor e do desejo perante a ignorância do fascismo, das ditaduras, do racismo e de todos os discursos de intolerância. Vamos falar de amor, liberdade, revolução, relembrar os nomes dos esquecidos, que desapareceram nas paisagens de guerra, essas pessoas que muitas vezes foram consideradas por gerações de corrupção política, pelos ditadores como pessoas infernais, elementos sujos de uma sociedade, a minoria, os marginais, todos os que não dignificam a pátria, a família, Deus. Deus, Pátria e Família eram os três grandes conceitos defendidos pela ditadura de Portugal, ditadura que foi destruída por uma revolução de flores. Talvez nesta memória histórica se encontre o motivo inconsciente para a minha obsessão com flores em cena e com a Sagração da Primavera na qual uma sociedade decide sacrificar uma pessoa. Vamos pensar na memória e no discurso dos corpos marginais, inscrever essa marginalidade no discurso artístico. PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra) é um manifesto em nome da intimidade, da resistência, do divino como manifestação do desejo que cada corpo transporta, o amor como possibilidade radical, mas não opressiva (pois todos os radicalismos me parecem opressores, tanto os radicalismos produtores de horror, como os produtores de sociedades nas quais todos vivem felizes para sempre). Perante o descontrolo de tantos sistemas políticos sinto que mais uma vez a Arte poderá ser o lugar único de possibilidade de reconstruir poeticamente o mundo. Um lugar em que as pessoas não pretendem procurar a igualdade, mas a absoluta diferença, ou seja, a identidade original, aquela mais difícil de alcançar, o Eu absoluto fora dos discursos normativos, valorizando mais que tudo a existência como lugar de transcendência. Desenhar uma Epopeia como um admirável Requiem Revolucionário. PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra) é uma oportunidade de desenvolver a minha visão de Arte no que ela pode ter de monumental e revolucionário. É a construção de um grande gesto. A Arte surge como ação, movimento do pensamento que altera as paisagens e a coreografia dos corpos. A Arte que se aproxime do divino. A Arte como forma de recuperar a verdadeira memória do ser humano e que rompe de uma vez por todas com os pensamentos que continuam alimentar falsas ideias de justiça e de bem. Busco no confronto com os mortos uma maneira de repensar a vida, além das utopias, mas como um manifesto. Falar de morte será sempre um confronto com a vida, um despertar possível e absolutamente necessário contra a perpetuação da guerra. Se prestarmos atenção aos contos infantis, como os contos dos Irmãos Grimm, percebemos a quantidade de torturas que encontramos, especialmente no final das histórias onde o bom da história tortura os maus da história que por sua vez torturaram os bons da história e o ciclo de justificações para o massacre do corpo do outro permanece. A violência aparece sempre como uma possibilidade, independentemente da situação, e o ciclo de intolerância e ignorância continua a existir. PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra) sofre também influência da ideia de funerais e de uma ideia subversiva do Carnaval. Como se a guerra fosse uma manifestação carnavalesca, um tipo assustador de brincadeira de crianças. PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra) parte de uma lista de interrogações tais como: De que forma a incapacidade de nos relacionarmos com as ruínas produzem corpos com fraca capacidade de ação e de reação? De que forma é possível continuar depois de uma situação como a Segunda Guerra Mundial? É possível destruir a ideia de História? Que História é possível contar se os corpos se transformaram em números, esvaziados de nome e de identidade?  Porque é que eu não consigo compreender a ideia de que a História é algo que que se repete ciclicamente? Qual é a importância da memória? Que revolução podemos encontrar nos corpos marginais? Porque é que as pessoas acreditam mais na História do que na biografia? Como é que podemos reinventar a beleza? Há espaço para a consolação? Como é que a culpa se constrói? O que recordar quando tudo está destruído? Porque é que é tão perigoso olhar para trás? Depois da catástrofe, da espera, quais são os funerais que é preciso realizar? Como é que um corpo resiste, dança, destrói, transforma? Qual é o lugar do corpo na catástrofe? Qual é o lugar do amor? É possível o amor ser um acto revolucionário, transgressivo, um grande excesso quando os tempos são sombrios? Qual é o peso dos mortos? Como é que eu me relaciono com os fantasmas? Todas estas interrogações formam a interrogação base do projeto PENÉLOPE (um estudo sobre o Amor em paisagem de Guerra): De que forma o amor sobreviveu à memória da Segunda Guerra Mundial e como é que pode ser reinventado e servir como motor revolucionário perante a ascensão do fascismo no mundo, como por exemplo no Brasil? Trago como dado biográfico para este projeto a noite em que fiquei a saber o resultado das eleições brasileiras. Acreditei até ao último momento que o resultado seria outro. Nessa noite não dormi e este projeto ficou com essa sombra: a eterna repetição da história e como isso me parece absurdo. Uma condenação sustentada pelas máquinas do poder que insistem em perpetuar a sua condição. Fiquei com a sensação que perante movimentos de intolerância resta a reinvenção do desejo que associo violentamente ao amor. O amor que ultrapassa a sua condição romântica, de relação, de procriação da espécie e que se transforma numa ação de identidade, uma relação violentamente delicada com o mundo, com os outros. O amor enquanto real gesto de destruição, o único necessário, a destruição de todos os sistemas de opressão.

Tiago Vieira

 

Alípio Padilha