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Último slow

Rui Catalão

Na minha adolescência, pouca gente ia ao Lido ver cinema, mas foram muitos os miúdos e miúdas da linha de Sintra que lá deram o primeiro beijo. A discoteca que havia lá dentro começou por tomar o lugar da plateia, depois invadiu o balcão, até que finalmente já só restavam vestígios de umas filas de cadeiras muito lá para cima.

Naquela época, já não se dançava em pares. O pessoal dançava sozinho e aos encontrões. Mas a meio da sessão, o disc-jockey punha a tocar dois ou três slows, os olhares cruzavam-se e os rapazes lá se decidiam a ir ter com as raparigas. Sem haver necessidade de perguntar o nome, abraçavam-se a friccionar o osso ilíaco e quando chegava o refrão já os lábios se tocavam.

Para quem ainda não percebeu, dei o meu primeiro beijo numa matiné do Lido. Perdi o primeiro slow a olhar na sua direcção, ela esperou, esperou e para não desperdiçador o último slow aproximou-se de mim: “A minha amiga quer dançar contigo”, sussurrou-me ao ouvido. “Mas eu quero dançar contigo”, respondi.

Já não me lembro do nome dela, mas sou capaz de reconhecer mais facilmente o perfume que usava nesse dia do que o sabor da pasta de dentes que usei esta manhã. O hálito dela, a textura dos seus lábios e a sua língua suculenta tornaram-se a pedra de toque e o santo graal da minha sexualidade.

 

Esta peça nasceu da memória do primeiro beijo, no último slow daquela matiné no Lido. Já então, os slows estavam a entrar em desuso e pouco tempo depois desapareceram de vez. Quem tenha menos de quarenta anos é provável que nunca tenha dançado um slow. Mas ÚLTIMO SLOW é menos um convite à nostalgia do que uma tentativa de resgate.

Não é difícil imaginar o porquê dos slows e dos convites para dançar terem desaparecido: o embaraço, o pavor de ser recusado e – pormenor fatal – aquela gente toda a assistir à vergonha. Mas quem nunca dançou um slow ignora o que é passar pela tortura de nos aproximarmos de um desconhecido, ao som de uma canção sentimental, e desfalecer nos seus braços.

 

 

Dramaturgia e coreografia: Rui Catalão
Interpretes: Kim Baraka, Tiago Barbosa, Jéssica Ribeiro, Rolaisa Embaló, Catarina Keil, Davide Cipriano, Tiago Gandra, Augusto Amado, Joãozinho da Costa, Ruben Saints, Matthieu Ehrlacher
Luzes/direção técnica: Cristovão Cunha
Figurinos: Carlota Lagido
Produção: [PI] Produções Independentes / Tânia Guerreiro
Coprodução: Câmara Municipal de Lisboa/ Biblioteca de Marvila
Apoio: Largo Residências; Junta de Freguesia de Arroios.
[PI] Produções Independentes é uma estrutura apoiada pela República Portuguesa – Ministério da Cultura / Direção-Geral das Artes.